20 de jun de 2008

Naipi e Tarobá


Há séculos, às margens do Rio Iguaçu vivia a tribo dos Caingangues*. A terra não tinha fronteiras como hoje a conhecemos, dividida entre Brasil e Argentina. Os caingangues amavam o rio que lhes oferecia o sustento. Eles serviam com temor ao deus Mboi – gigantesca serpente que habitava as profundezas do rio Iguaçu. O deus Mboi, para abençoá-los, exigia que lhe entregassem as indiazinhas mais bonitas da aldeia. Numa cerimônia muito triste, as índias ornamentadas com flores, como noivas, despediam-se de suas famílias e, depois, eram levadas de canoa até o meio do rio. Ali, saltavam para as águas escuras e passavam o resto de suas vidas servindo a Mboi. Os anos passavam e nada mudava. Certa vez, uma índia já velha pariu uma filha às margens do Iguaçu. Naipi cresceu para tornar-se a mais bela jovem que já fora vista pelos olhos dos caingangues. Seus olhos possuíam as nuances das Grandes Águas quando iluminadas pela luz do sol ou da lua. Sua formosura era tanta que, quando ela se mirava no rio, as águas paravam para admirá-la. Um dia, quando ela se banhava, Mboi a viu e seu coração estremeceu: aquela era a mais linda de todas as mulheres! Imediatamente, ordenou que a entregassem a ele. Que pena! Todos na aldeia ficaram angustiados, mas não havia outro jeito: seria necessário sacrificar a jovem. Naipi estava prometida para um jovem guerreiro, Tarobá. Eles se amavam de todo coração e o sofrimento por saber da iminente separação os deixou em profunda agonia, porque Naipi não ousava pedir que a tribo desobedecesse ao deus, por medo de que ele os castigasse a todos.Naipi e Tarobá decidiram, então, atrair para si mesmos a ira de Mboi e resolveram fugir, esperando que o amor que sentiam um pelo outro fosse maior que o poder de Mboi. Era tempo das cheias e a única rota de fuga possível era justamente pelo domínio do deus-serpente: o rio Iguaçu. O monstro percebeu a fuga e enfureceu-se muito, perseguindo os dois jovens apaixonados. Apesar de ser grande e poderoso, de repente Mboi viu que Tarobá e Naipi conseguiriam escapar em direção ao rio Paraná. Assim, num esforço supremo, ele ergueu seu imenso corpo, produzindo um som ensurdecedor pelo deslocamento das águas; em seguida, deixou-se cair com estrondo, criando uma enorme fenda no rio Iguaçu, que, devido ao impacto, teve sua extensão toda fendida em abismais catadupas. Surgiram, assim, as esplêndidas Cataratas do Iguaçu, cuja beleza pungente só pode ser comparada à formosura da face de Naipi e cuja força só se mede pelo amor dos dois jovens. A canoa que os levava foi tragada pelas águas e desapareceu. Como castigo, Naipi foi transformada em uma das grandes rochas centrais das Cataratas; e Tarobá foi transformado em uma árvore, à beira da cachoeira. Um via o outro, mas jamais poderiam se tocar novamente. Dizem que Mboi está lá até hoje, escondido pela espuma das águas, vigiando os dois índios apaixonados...
(Versão autoral de Sandra Baldessin, a partir do relato de uma índia artesã, encontrada no "Parque del Iguazu", em Puerto Iguazu, Argentina; fotografia feita por mim, em março de 2007).
*Os caingangues, ou kaingang, são indígenas brasileiros, originários do norte do Paraná. Hoje, estão distribuídos em reservas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A língua dos caingangues pertence à família Jê, do tronco Macro-Jê. Para saber mais, clique aqui.

Um comentário:

Kr. Eliane disse...

Olá Sandra :
Adoro contos e lendas!!!
trabalho reciclando madeira e gosto de colocar um toque de encanto nessas peças que faço.
queria fazer uma india naipi e procurei na internet e não achei muita referência em imagens.
Existe livros que contam lendas de nossos índios com detalhes de suas tribos?
penso que que moramos no Brasil e não conhecemos nada sobre índios.
um beijo.
Eliane
http://elianeapkroker.blogspot.com.br/